18 outubro 2017

Domingos Correia ― desafio 127

Arminda Silvestre e Castro
Arminda Silvestre e Castro tinha noventa anos. Cheiinha de estrias, estragos do tempo, mas no olhar, duas estrelas, quais astros de céu noturno! 
Já vivera no estrangeiro, palmilhara já muita estrada, enfrentara muitos monstros e, no entanto, continuava ali.
Segredos? Comia, vivia, falava o estritamente necessário. Era mestre do viver. Agora restringia-se à sua casinha… pouco saía.
Tão sábia aquela sua frase que dizia tantas vezes!
― Esta vida é tão curta, mas com uma história tão comprida!...
Domingos Correia, 59 anos, Amarante

Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

Amélia Meireles ― desafio 122

Todos os dias, sem que a velha Genoveva desse conta, banhava-se no seu leite morno. Não era uma mosquita qualquer. Vaidosa, gostava de preservar a pele sedosa. Enquanto se banhava, bebia um pouco de leite e, no dia seguinte, entre uma colherada e outra, voltava ao mesmo. Naquele dia notou algo diferente. A pele desfez-se. Genoveva misturara água fervente ao leite condensado. Sentia-se desfalecer. Genoveva barafustou. Sentiu-se atirada para o ralo. Era apenas uma mosquita no leite…
Amélia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 122 ― um mosquito no leite

Matilde Faria ― desafio 126

Estava no meio da ponte, e o nevoeiro intensificava! Cada vez mais denso, impedia-a de observar o voo da ave branca. Aparecia, logo desaparecia, sentia-a intermitente! Trazia a mensagem da data do regresso de seu pai. Ao aperceber-se do seu desaparecimento, o medo aumentava. Conseguiria a ave transpor o nevoeiro e encontrá-la?
Até que a bruma deixou de cobrir a ponte, desvanecendo, e o recado foi surpreendentemente entregue pelo seu pai. A guerra terminara, a paz dominara!
Matilde Faria, 14 anos, Colégio Paulo VI – Gondomar, Prof.ª Raquel Almeida Silva
Desafio nº 126 – sentia-se intermitente


Amélia Meireles ― desafio 123

Nunca mais fora o mesmo, depois de ter estado entre a vida e a morte quando teve tifo. Nada fazia jus à sua capacidade de entrega, nem mesmo quem já merecera a sua total doação. Juca gostava de passear à beira rio e, por longas horas, afastar-se das gentes que o rodeavam. O rio Sado parecia entender toda a sua desilusão. Nele deixava ir toda a sua mágoa. Depois, no seu jardim, debaixo da velha sica, adormecia.
Amelia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada
Desafio nº 123 – palavras com letras de justificado


Eurídice Rocha ― sem desafio

vergonha
uma solidão desgarradora
uma fragilidade intrínseca
que tinha diante dos olhos
vagamundos
buscou forças aonde já as não havia
levantem-se que já é hora
nem ele nos entende a nós
expresse o meu pensamento
nem nós o entendemos a ele
caiu ali um meteorito
filhos, sem saber porquê nem para quê
sem consciência
sem responsabilidade
sem culpa

culpa
desgarradora fragilidade
vagamundos dos olhos
meteorito sem responsabilidade
pensamento sem saber hora
levantem-se vergonha
intrínseca consciência
solidão ali

Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Amélia Meireles – escritiva 22

Conseguira! Apressadamente escondeu a foto do seu amigo colorido. Por pouco não fora apanhada pelo namorado. Gostava mesmo da dedicatória: “Sou o teu amor para a vida”. Agora só desejava chegar a casa sem que Hugo descobrisse. Apressou-se a sair da biblioteca mas, sem dar conta, pegara no livro de matemática do namorado. Ao devolvê-lo, percebeu que fora ali que escondera a foto da sua nova paixão. Apanhada! Como explicar o inexplicável? Uma história que acabou mal...
Amélia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada

Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante

Luís Capela – sem desafio

Vida
Minha mãe está longe. Estou longe da minha casa... vivo no lar. Minha mãe já não consegue apoiar-me. Sinto saudades do meu pai. Quero morrer.
No lar ninguém tem tempo para estar. Sinto-me só. Não gosto. Penso muito na morte, nesta vontade... morrer!
No dia seguinte acordo, venho para a quinta e cá gosto de trabalhar, gosto de jogar boccia, gosto de tocar nos "Ligados às Máquinas".
e pudesse escrevia à minha mãe "gosto muito de ti".

Luís Capela, 33 anos, Mealhada

Eurídice Rocha – sem desafio

Meu amor
Entre a miséria exaltam-se tesouros que aliviam os dias e os tornam prováveis. Mil cores de mil tecidos ágeis balanceiam-se nos corpos torneados das gentes dóceis, onde guerra não se espelhou.
Sorrisos resplandecentes esculpidos na dor de um povo feito de almas suaves – sentenças correm no desenrodilhar do tempo amamentando elos. Povo dócil esculpido na dor!
Terra pó assalta-nos corpo, talha-nos esculturas da leveza branda do ser.
Odores distintos enlaçam-nos paisagem inebriante.
Quero-me tu, só tu, Angola! 

Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

17 outubro 2017

Joana Silva ― desafio 126

Olhas-te ao espelho e já não és o mesmo. Vês o teu mundo a desmoronar diante dos teus olhos. Tu mudaste, eles mudaram, tudo mudou. Sentes-te intermitente. Ora vives, ora sobrevives. De um momento para o outro, escorregas em memórias e em possíveis cenários de tragédias psicológicas. Choras, tremes, passas as mãos pelo cabelo vezes e vezes sem conta. Limpas as lágrimas e um sorriso aparece no teu rosto. Ninguém precisa de saber como realmente te sentes.
Joana Silva, 14 anos, Colégio Paulo VI – Gondomar, Prof.ª Raquel Almeida Silva

Desafio nº 126 – sentia-se intermitente

Isabel Sousa – desafio 115

Os homens são rios iludidos
Na contínua rotação das noites, os homens esperam futuros por acontecer. Nessa espera, são rios iludidos que querem ser lagos. Ávidos, retêm as águas nas pedras e constroem barragens, esquecendo a sua verdadeira natureza que é serem rios e passarem. Difícil convencê-los a soltarem-se, perderem o medo e cavalgarem os leitos de mil escombros, como cascatas caindo em plena liberdade. Nesta retida condição, muitas vezes, acordam quando finalmente atingem o mar e se dissolvem nas salgadas águas.
Isabel Sousa, 65 anos, Lisboa
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

Gonçalo Gonçalves ― desafio 126

Desde a festa do João que me sinto intermitente. Já não é só a cabeça que se afasta. Agora é a minha alma, o meu ser. Eu sabia que não devia ter experienciado… De tantos avisos que me deram e que sempre achei sem importância, fui, mesmo assim, experimentar. Porque é que lhes dei ouvidos? Devia ter ficado em casa naquele dia. Imagino a mácula que será quando falar com os meus pais. Acho que vou desligar…
Gonçalo Gonçalves, 14 anos, Colégio Paulo VI – Gondomar, Prof.ª Raquel Almeida Silva
Desafio nº 126 – sentia-se intermitente

Zelinda Baião – desafio 127

O lugar era estranho. A estrada, fio de nastro a serpentear por entre colinas, conduziu-a a nenhures. Apenas um céu, imenso, estrelado, esperava por ela. Que importava? Sempre vivera sem qualquer restrição, com o estritamente necessário. Era livre!
Aspirou o ar e estremeceu. Um som, cavernoso, estridente, qual monstro saído das entranhas agrestes, ecoou. Uma orquestra? Ali? Inusitado. Ou não. Desafinava. Não havia maestro. Apenas homens e mulheres que rodopiavam, loucos.
Estremunhada, abriu os olhos. Que sonho!
Zelinda Baião, 55 anos, Linda-a-Velha
Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

António Vaz ― desafio 126

Estava um dia soalheiro e quente. Toda a gente tinha um enorme sorriso no rosto. O ambiente era alegre e divertido! Só eu estava triste, embora não soubesse porquê.
Ora me sentia pesaroso ora me deixava contagiar por tal contentamento. Sentia-me… intermitente. Como costumava andar animado, toda a gente na escola estranhava o facto de eu estar assim e comentava-o pelos corredores, até mesmo os professores.
O que se passava, afinal, que nem eu percebia? Ai, adolescência!... 
António Vaz, 14 anos, Colégio Paulo VI – Gondomar, Prof.ª Raquel Almeida Silva
Desafio nº 126 – sentia-se intermitente


Amélia Meireles – escritiva 23

Cansado do bulício da cidade? Gosta do cheiro a maresia, de adormecer ao som do marejar do mar? Quer calcorrear as negras areias vulcânicas que ladeiam as mais belas praias duma ilha perdida no Atlântico? Quer ouvir o verdejante dos campos numa toada de verdes nunca vista? Deseja alargar o olhar pelas mais belas paisagens? Curioso para degustar os sabores tão diversos e característicos destes ilhéus? Marque viagem para a bela ilha de São Miguel! Venha daí!
Amélia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada
Escritiva nº 23 – recomendar um destino, guias de viagem


Elisabeth Oliveira Janeiro – desafio 127

Manha e Cobardia
estrada apresentava-se longa e estreitaestrictamente de acentuado grau de inclinação. Difícil a subida, cautelosa a descida. Tolhida pela noite, produzia ainda maiores estremecimentos.
Passava um bando de estroinas, fazendo estrondo, acicatando um coelho bravo que, medroso, fugia aos destravados.
Brilhavam estrelas, mas o escuro da floresta ajudava à estratégia da matilha. Numa estridência, surgiram caçadores de fuzil e sem estrombo, à porfia de caça. Os valentões, de repente, cobardolas, distribuíram salamaleques e, de pianinho, desapareceram.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 73 anos, Lisboa
Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3


Susana Cascalheira – sem desafio

Os amigos são pão para o amor. Gosto dos amigos como música.
A mãe gosta da casa triste… está sempre a cozinhar. É uma m…, sempre a discutir, é uma m…. Ó mãe, tenho medo que morras. Tenho medo de ficar só. Mãe, gostas da rua, de passear.
Eu gosto de namorar. Ele é comida para o meu coração, como banana que gosto de sentir. É um sofá que me abraça. É hortense que gosto de cheirar.

Susana Cascalheira, 35 anos, Coimbra

Amélia Meireles – desafio 124

Anunciada a boda, ela não conseguiu conter o seu desagrado.
Tragédia! Era desse modo que via o casamento do filho.
Uma raiva surda encheu-lhe a alma, incapacitando-a de ver para além de si.
“Parece uma super-lula, tão possessiva!”, comentavam os amigos.
Acreditava ter sempre razão e julgava-se dona da verdade.
Parecia zangada com o mundo inteiro.
Tudo tinha de girar à sua volta. Em nada cedia, nem na possibilidade de deixar o filho ser feliz! São sortes…
Amélia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 124 ― és uma super-lula!

Iara Pedro – desafio 3

Número Um
Come o atum
Número Dois
Encontras-me depois 
Número Três
vi um chinês 
Número Quatro
Calca o sapato 
Número Cinco
Fecha o cinto
Número seis
Rasga os papéis
Número sete
Vamos ver a cassete
Número oito
Comi um biscoito
Número nove 
olha que chove
Número dez
olha os dedos dos pés
Iara Pedro, 6º M Casa Pia de Lisboa – CED Nuno Álvares Pereira – prof. Teresa Monteiro
Desafio nº 3 – números de 1 a 10


Amélia Meireles – desafio 125

A ameaça da chuva ganhava força. Repentinamente, o vento começa a aconchegar-se. Enrolando-se, desenhou ou perfeito funil. O ar quente sufocava o medo que as roseiras sentiam. Não, não podia ser, o seu jardim teria que ficar incólume. Dali a dez dias seria o seu casamento, bem no meio do roseiral. Adivinhando a sua angústia, o tornado lavrou toda a zona de erva que desfeava o jardim. Estava feito o trabalho do jardineiro… Uma noiva com sorte?!
Amélia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 125 – tornado no jardim

16 outubro 2017

Rodrigo Oliveira ― desafio 23

Era uma vez um leitão casado com uma rolha. Um dia estava a esmagar nozes com o almofariz para comer, pois era hora de jantar. Foram dormir, e de manhã toca o despertador e lá foram jogar com a sua bola de ténis. Quando estavam a chegar a casa viram uma vespa que a picou. A rolha ficou triste por o leitão não a ter protegido. Então ele resolveu escrever um papel de amor para a rolha.
Rodrigo Oliveira, 6ºA, Escola Dr. Costa Matos, prof Cristina Félix
Desafio nº 23 – percurso de palavras obrigatório: leitão + rolha + almofariz + despertador + bola de ténis + vespa + papel