31 março 2014

Programa Rádio Sim nº 227 - 31 Março 2014

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No site da Rádio Sim

Tanta coisa...
Podia ter dito tanta coisa… Optei por falar com ideias claras sobre o que, pelos vistos, nos esperava. OH!, QUANDO TERMINEI, TODOS ESTAVAM CIENTES DA LOUCURA. Contudo, não havia nada a fazer, estávamos todos também conscientes disso. Talvez por essa razão, cada um partiu numa direcção diferente, começando a construir o seu próprio destino dentro da loucura. O meu, traçara-o há muito – iria ter contigo. Queria que pudéssemos, nestes últimos dias antes de tudo desaparecer, estar juntos.

Margarida Fonseca Santos, 52 anos, Lisboa
(exercício retirado do livro “Escrita em Dia”, de MFS, Clube do Autor, 2013)
Desafio nº 42 – frase com 5A, 5E, 5O, 3I e 3U, que dá o mote

Sem ar

Sem ar o rapaz parou.
Parou para, silencioso, retirar a pistola do bolso.
O bolso onde a mão tremia, e o suor tornava o punho escorregadio
Escorregadio como o caminho que escolhera e por onde se perdera.
Perdera bens, esperança e não havia quem lhe estendesse a mão.
Mão que determinada agarrava a pistola pronta a pôr termo a tudo.
Tudo parecia perdido até se ver refletido nas águas do rio, então sem ar o rapaz parou.

Quita Miguel, 54 anos, Cascais

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

A Festa do Circo

Está o circo na cidade, há uma enorme alegria
Há uma enorme alegria. Leões, macacos e ursinhos
Leões, macacos e ursinhos, acrobatas e palhaços
Acrobatas e palhaços, tudo em perfeita harmonia
Tudo em perfeita harmonia, meninas nos cavalinhos
Meninas nos cavalinhos e a dama de muitos laços
E a dama de muitos laços, destros cães, tigres de felpa macia
Tigres de felpa macia. Está o circo na cidade
Está o circo na cidade, há uma enorme alegria.

Elisabeth Oliveira Janeiro, 69 anos, Lisboa

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

Um talento nasceu

Num domingo pluvioso, ao ver o cartaz à janela, hoje karaoke, decidimos para entrarmos no bar.
No bar com escassa luz pairava sobre as mesinhas uma fumaça grossa.
Uma fumaça grossa e azul que mesmo na tela turvou as palavras que dançavam no ritmo de fado do Camané.
O Camané imitador sabia cantar, no meio do fumo azul, entoou a canção tão persuasivo que os amadores de karaoke aplaudiram espontaneamente, e um talento nasceu, num domingo pluvioso.

Theo De Bakkere, 60 anos, Antuérpia Bélgica

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

Será...?

“Aaaaaatchiim!”
“Santinho! Vejo que não estás melhor…“
“Nada. Entre ácaros e primavera estou completamente apanhado, receio que me caiam as folhas com tanto espirro.”
“Que ironia! Um livro alérgico…”
“Se ao menos nos limpassem o pó!”
“A que ali vem não era a miúda que estava sempre a ler-te? Está crescida.”
“Fez-se uma mulher, não me vai querer pegar…”
“Enganas-te, vem na tua direcção, vai ler-te que é uma limpeza!”
“E atrás dela uma criança. Será que…?”

Carla Flores, 44 anos, Aveiro/Lisboa

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Discrepâncias de ideias

– Que saudades da senhora – lamentou o relógio
– Pois eu acho que estamos melhor – rematou o candelabro
– Como melhor?! Como podes dizer tal barbaridade?! Aqui estamos largados nesta prateleira cheia de pó na qual nem o sol bate.
– Já fizemos muito, é hora de descansar! Foram 80 anos.
– Qual descansar! Já começo a sentir-me enferrujar. Se ao menos viessem dar-me corda como fazia a velha senhora.
– Isso é idade.
– Estás a insinuar que estou velho?
– Eu? Que ideia.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

30 março 2014

Diário

Saio de casa antes do dia amanhecer. Antes do dia amanhecer é de noite e está escuro.
De noite está escuro e os pensamentos confundem-se nessa negritude.
Nessa negritude passa uma imensidão de sentimentos, desde o rancor ao mais profundo desprezo.
O mais profundo desprezo por o pensamento não compreender o corpo. O corpo que já não obedece, que teima em ficar encolhido, quebrado. Encolhido, quebrado por tanta idade e tão inútil medicina, saio de casa.

Alda Gonçalves, 46 anos, Porto
Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…


Imóveis

– E continuamos imóveis.
– Aqui deixámos de sentir o tempo.
– O tempo apagou-se.
– Deixou de arrefecer.
– O pó vestiu-nos.
– Somos passado?
– Presente sem esperança?
– Faltam -me o vermelho das copas e dos ouros.
– Perdi torres de resistência e peões combatentes.
– Somos jogos nunca mais jogados?
– Seremos jogos reinventados.
– Um novo jogo onde incompletos se complementarão.
– Ainda seremos futuro?
– Basta sermos descobertos pelo poeta.
– Quando se ouvirem risos de crianças.
– E os poetas e as crianças existem.


Maria da Conceição Gralheiro, 57 anos, Aveiro
Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Podia acontecer

Fiquei descalça, ao sentar-me à beira mar naquela tarde primaveril.
Naquela tarde primaveril  tudo que se relacionasse com lazer, era apelativo.
Era apelativo ler,  pegar a paleta, pincéis, desenhar... e sonhar!
Desenhar e sonhar , bem, desenhar não desenhei, mas sonhei com sereias, adamastores, pois adormeci, embalada pela canção do mar.
Embalada pela canção do mar,  pelo aquecimento reconfortante dos raios de sol.
Raios de sol que se retiraram, a maré subiu levou-me os sapatos e...  fiquei descalça

Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

EXEMPLOS - desafio nº 63

Ela amanhecera exausta, sobrecarregada; parecia ter uma tonelada sobre os ombros.
Sobre os ombros pesavam tantas coisas: Incertezas, inseguranças.
Incertezas, inseguranças faziam muito mal, teria que tudo resolver!
Teria que tudo resolver? Puxa vida, e cadê a coragem?
Cadê a coragem, que cada vez mais lhe faltava? Não sabia!
Não sabia de mais nada e quer saber da verdade: sentia-se fraca, incapaz, sem forças!
Sem forças para ela, estranho, mas entregava os pontos hoje: ela amanhecera exausta!
Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 

25 de Abril
No 25 de Abril
Dia da revolução,
Nossos valentes soldados
Fizeram livre a nação.

Fizeram livre a nação,

E cravos apareceram.
Nas ruas da Capital,
Uma canção entoaram.

Uma canção entoaram,

Sem medo, com verdade.
Grândola vila morena
Terra da fraternidade.

Terra da fraternidade,

Ouvia-se em todo o lado.
Na boca de muita gente,
Do povo que sofreu calado.

Do povo que sofreu calado,

Cantavam bem mais de mil,
No dia da liberdade,
No 25 de Abril.
Isabel Branco, 53 anos, Charneca de Caparica

Podia acontecer
Fiquei descalça, ao sentar-me à beira mar naquela tarde primaveril.
Naquela tarde primaveril tudo que se relacionasse com lazer, era apelativo.
Era apelativo ler, pegar a paleta, pincéis, desenhar... e sonhar!
Desenhar e sonhar, bem, desenhar não desenhei, mas sonhei com sereias, adamastores, pois adormeci, embalada pela canção do mar.
Embalada pela canção do mar, pelo aquecimento reconfortante dos raios de sol.
Raios de sol que se retiraram, a maré subiu levou-me os sapatos e...  fiquei descalça
Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo

Diário
Saio de casa antes do dia amanhecer. Antes do dia amanhecer é de noite e está escuro.
De noite está escuro e os pensamentos confundem-se nessa negritude.
Nessa negritude passa uma imensidão de sentimentos, desde o rancor ao mais profundo desprezo.
O mais profundo desprezo por o pensamento não compreender o corpo. O corpo que já não obedece, que teima em ficar encolhido, quebrado. Encolhido, quebrado por tanta idade e tão inútil medicina, saio de casa.
Alda Gonçalves, 46 anos, Porto

Num domingo pluvioso, ao ver o cartaz à janela, hoje karaoke, decidimos para entrarmos no bar.
No bar com escassa luz pairava sobre as mesinhas uma fumaça grossa.
Uma fumaça grossa e azul que mesmo na tela turvou as palavras que dançavam no ritmo de fado do Camané.
O Camané imitador sabia cantar, no meio do fumo azul, entoou a canção tão persuasivo que os amadores de karaoke aplaudiram espontaneamente, e um talento nasceu, num domingo pluvioso.
Theo De Bakkere, 60 anos, Antuérpia Bélgica

A Festa do Circo
Está o circo na cidade, há uma enorme alegria
Há uma enorme alegria. Leões, macacos e ursinhos
Leões, macacos e ursinhos, acrobatas e palhaços
Acrobatas e palhaços, tudo em perfeita harmonia
Tudo em perfeita harmonia, meninas nos cavalinhos
Meninas nos cavalinhos e a dama de muitos laços
E a dama de muitos laços, destros cães, tigres de felpa macia
Tigres de felpa macia. Está o circo na cidade
Está o circo na cidade, há uma enorme alegria.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 69 anos, Lisboa

Sem ar
Sem ar o rapaz parou.
Parou para, silencioso, retirar a pistola do bolso.
O bolso onde a mão tremia, e o suor tornava o punho escorregadio. 
Escorregadio como o caminho que escolhera e por onde se perdera.
Perdera bens, esperança e não havia quem lhe estendesse a mão.
Mão que determinada agarrava a pistola pronta a pôr termo a tudo.
Tudo parecia perdido até se ver refletido nas águas do rio, então sem ar o rapaz parou.
Quita Miguel, 54 anos, Cascais

A chuva caía lentamente, torvando o olhar da minha janela.
Da minha janela dava para sentir a pressa lá fora.
Lá fora as gentes apressavam o passo e desapareciam das ruas da cidade.
Das ruas da cidade tantas vezes pisada pelas pessoas e sujas pelo tempo.
Ao tempo que pela minha cidade não chovia assim.
Chovia assim, tanto que dava para lavar a alma noutros tempos.
Noutros tempos sem pressa nenhuma, em que a chuva caía lentamente.
Paulo Roma, 50 anos, Lisboa

Era fácil de explicar, mas precisava definir... contornando e revelando o seu verdadeiro significado.
Revelando o seu verdadeiro significado, a amizade que sentia pelos amigos era inexplicável... sentimento fiel de afeição, simpatia, ternura, confiança, camaradagem...
clarear o sentimento existente... Amizade é um sentimento nobre!
Amizade é um sentimento nobre...é como uma pérola preciosa, torna-se um dos sentimentos mais importante na vida do ser humano, a amizade o mais belo fluente do amor!
Era fácil de explicar...!
Prazeres Sousa, 51 anos, Lisboa

A tarde estava cinzenta.
Também cinzenta estava a alma de Clara. E Clara era uma mulher forte, mas desiludida com a vida.
 A vida nas ruas vendendo sexo, sem conhecer o amor. E era amor que ela queria desde criança.
Mas a criança que Clara foi só conheceu pobreza e fome. Fome de alimento, de carinho de um pai e de uma mãe.
Torna-se mãe e tem medo. Medo de apenas conseguir dar o que teve – cinzento.
Joana Marmelo, 50 anos, Cáceres, Espanha

Cruzei-me contigo à noite no baile
À noite no baile dançaste comigo
Dançaste comigo, tiraste-me o xaile
Tiraste-me o xaile por seres atrevido
Por seres atrevido, roubaste-me um beijo
Roubaste-me um beijo, fui-me logo embora
Fui-me logo embora cheia de desejo
Cheia de desejo de os ir buscar
De os ir buscar, ao beijo e ao xaile 
Ao beijo e ao xaile, que deixei roubar
Que deixei roubar porque me cruzei…
Cruzei-me contigo à noite no baile
Isabel Lopo, 68 anos, Lisboa

Liberdade individual
A liberdade de um povo começa acima de tudo pela liberdade individual. A liberdade individual necessita de uma revolução interna. Uma revolução interna que faz cair as crenças limitantes sobre quem és e descobres a tua voz. A tua voz é verdadeira quando resulta da tua essência, quando ouves os murmúrios latejantes da tua alma. Os murmúrios latejantes da tua alma procuram abrigo nas insatisfações externas para que despertes. Despertando contribuis para a liberdade de um povo.
Paulo Renato, 38 anos, Maia

 ficou tudo estragado, mesmo no momento que precisava do azul.
Precisava do azul para pintar o céu, não podia ser de outra forma.
De outra forma, não seria divino, pensou.
Pensou que se pintasse o mar como alternativa, podia usar o verde. Oh, mas o verde revoltou-se nas terras quentes do vermelho. Das terras quentes do vermelho ela tinha saudades, por isso ficou feliz pelas paisagens criadas quando as cores se misturaram.
Clara Lopes, 37 anos, Agualva, Sintra 

Nem sempre é possível olhar e ver.
Olhar e ver pressupõem mais do que boa visão.
Boa visão sem conhecimento redonda em incompreensão.
Incompreensão, não por falta de inteligência, mas pelo desconhecimento, prévio, do significado do que se vê.
Do que se vê podemos tirar miríades ideias, reais ou imaginárias, mas todas verdadeiras.
Verdadeiras, porque a verdade está para além dos olhos – na maioria das vezes estão no coração.
No coração ressoam sentimentos, pena que nem sempre.
Ana Paula Ferreira

Eu não sei o que dizer
Eu não sei o que dizer, pra você,
a respeito desse assunto.
Desse assunto
 que me deixa apavorada,
sem palavras, falar em defunto.
Falar em defunto
 é bem difícil, constrangedor,
jamais sendo ele conhecido.
Sendo ele conhecido, por todos
que habitam essa cidade, e tão querido.
Tão querido
 e tão amável
que partiu feito passarinho.
Feito passarinho alçou voo
e saiu de seu ninho.
De seu ninho para a eternidade,
confesso, eu não sei o que dizer.
Anne Lieri, 53 anos, São Paulo, Brasil

À noite os gatos são parvos e os elefantes estão presos em engarrafamentos, por isso são cinzentos.
São cinzentos porque buzinas mantêm à distância os da mesma espécie, cor-de-rosa e com asas.
Ser cor-de-rosa e com asas equivale a multas pesadas. Começa a cansar. Estradas sem asas
Estradas sem asas? Elefantes cor-de-rosa têm prioridade. Diz o meu código. Caso contrário, à noite, os gatos são parvos e os elefantes estão presos em engarrafamentos, por isso são cinzentos.
Marta Abrantes Pereira, 33 anos, Porto

Chegou Abril!
Chegou Abril, mês de mudança. Mês de mudança que veste os campos de verde, decora os montes com papoilas encarnadas. Papoilas encarnadas como o sangue. O sangue que nos dá vida para apreciarmos o azul que se instalou nos céus. Céus de azul sarapintado de pequeninas nuvens fugidias. Nuvens fugidias que dispersam dissimuladamente como a nossa liberdade. A nossa liberdade que vai sumindo, a cada dia. A cada dia – tenho esperança -, e digo sempre: já chegou Abril.
Maria José Castro, 54 anos, Azeitão

À minha irmã Manuela
Quis escrever hoje este texto, para to dar como prenda. Prenda de aniversário, pelos muitos que já vais somando.
Vais somando alegrias, tristezas, maus e bons momentos. Bons momentos, como o de hoje, com família reunida.
Com a família reunida, na partilha do teu dia, cantamos parabéns, desejamos-te longa vida.
Longa vida... que engraçado, sempre foste a "mana velha".
Velha amizade, ombro amigo, coração aberto, sempre pronta a ajudar...
Ajudar? Agora? Só para apagar as velas!
Parabéns!
Graça Pinto, 55 anos, Almada

Espelho de emoções

Partiu o porquinho com uma mão cheia de sonhos, sonhos de um ano inteiro a juntar diariamente uma moeda de um euro.
Uma moeda de um euro para comprar uma tela do tamanho da sua imaginação, para nela pintar as sensações dos odores da terra molhada.
Dos odores da terra molhada com pinceladas de verde e azul, com um lago onde as nuvens seriam o espelho das emoções.  
O espelho de emoções com que partiu o porquinho.
Fátima Veríssimo, 53 anos, Seixal

Amar e Ser Amado
Amar e/ou ser amado é alegria ou maldição?
Alegria ou maldição, excitação ou candura transforma o romance numa aventura.
Numa aventura viajamos alvoraçados para outras galáxias à velocidade de um cometa.
Um cometa apaixonado ultrapassa barreiras e abraça todas as estrelas.
As estrelas em sintonia dão-lhe uma sensação de liberdade.
Liberdade e lucidez para viver a sua história de amor no presente e no futuro.
No futuro viver uma relação para amar e/ou ser amado.
Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra   

Desta escrita, gosto!
Gosto, Margarida, deste teu quebra cabeça de obrigar a palavra que termina uma frase a seguinte iniciar.
Iniciar à semelhança da natureza em permanente, cíclica, renovação.
Renovação que, mês após mês, tu provocas com as propostas de novos desafios.
Desafios à inércia para escrever na nossa língua, e inventar  mini textos sempre subordinados a regras e a um tema.
Tema que nos leva ao prazer de brincar com as palavras até as 77 encontrar. Desta escrita, gosto!
Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 50 anos, Coimbra

Dona Antónia
Ali estava Dona Antónia, sozinha após a ida ao hospital. A ida ao hospital foi em consequência da sua pouca saúde. Pouca saúde era o que lhe restava dos 90 anos de vida. 90 anos de vida, parecia uma eternidade. Parecia não, era uma eternidade. Era uma eternidade também o que tinha de esperar cada vez que ia ao médico. Ia ao médico uma vez por mês para passar medicamentos. Para passar medicamentos ali estava Dona Antónia.
Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desejos
Gostava de saber escrever
Escrever encanta-me
Encanta-me a magia das palavras
Palavras beijam-me e abraçam-me
Abraçam-me como quando me pegas ao colo meu amor
Meu amor escreve-me um poema
Um poema que tenha cheiro de alfazema
Alfazema o aroma, do perfume que usas no teu rosto
No teu rosto vejo o sol resplandecer logo pela manhã
Pela manhã quase a medo beijas-me e contas-me um segredo
Um segredo venho partilhar contigo meu amor
Gostava de saber escrever
Maria Silvéria dos Mártires, 68 anos, Lisboa

Bethoven
Apesar de tudo, foram muitos anos de convívio e diverti-me imenso. Diverti-me imenso quando ficaste pendurado nas persianas da janela, metade para cá e outra para lá, preso. Preso no teu medo, de pêlo macio e negro, à espera da salvação dum anjo da guarda. Anjo da guarda que sempre foste, fiel ao teu rebanho tal qual um pastor. Pastor belga de raça, membro da família, caçado pelo assassino da morte lenta – silenciosamente amado, apesar de tudo.
Ana Diniz, 53 anos, Almada, Portugal

Num mundo diverso
Diverso com Luz
Luz de expressão, de pensamento, de ilusão
De ilusão conceptual do Bem Comum
Bem comum de espiritualidade necessária
Necessária aos seres humanos
Seres humanos sensíveis, complexos, irrepetíveis
Irrepetíveis, unos, que carecem de Esperança
Esperança de alcançar como directiva
Directiva do acordar, do existir, do partilhar
Partilhar tristezas mas sobretudo alegria
Alegria na família, no trabalho, na sociedade
Sociedade impulsionada com esforços inspiradores
Inspiradores de todos e de cada um de nós!
Ana Mafalda, 44 anos, Lisboa 

Esquecer de ti...
Quanto tempo há de passar até que esqueça de ti?
Até que esqueça de ti, oceanos secarão, lua nascerá em pleno meio dia.
Em pleno meio dia sinos não tocarão, chuvas de estrelas cairão,
Estrelas cairão no céu que será meu chão.

Meu chão de solidão,
De solidão ruirão mundos, dias e noites em vão...
Dias e noites em vão, sóis que se apagarão,
Sóis que se apagarão, e esquecer de ti? Quanto tempo há de passar?
Roseane Ferreira, Macapá, Estado de Amapá, Brasil 

No princípio, tudo era simples. Tudo era simples porque tudo dependia de nós. Dependia de nós, dos nossos desejos e projectos, não havia ainda os obstáculos da vidaOs obstáculos da vida vieram aos poucos comprometendo os sonhosDos sonhos ficaram os filhos, não é coisa poucaNão é coisa pouca nem qualquer coisa, é um sonho dentro de um sonho, uma fonte de felicidade e realismoFelicidade e realismo, afinal não é esse o projecto mais ousado?
Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria

Algo sublime florescera entre ambos. Entre ambos sentia-se algo. Sentia-se algo, mas o quê? O quê não conseguiam explicar. Não conseguiam explicar, queriam compreender mas era impossível, era algo novo. Algo novo, que não se pode decifrar, apenas sentir, algo do género de uma dor. Uma dor que os abraçava e embalava, como que uma brisa quente de verão que passa deixando apenas um silencioso sussurro. Um silencioso sussurro que tanto profere. Algo sublime florescera entre ambos.
Liliana Macedo, 16 anos, Ovar 

Beleza ímpar daquele entardecer! Entardecer onde o sol aprimorava a beleza que desenhava. Desenhava todas as tonalidades do vermelho e amarelo, numa dança inebriante. Inebriante no poder de nos transportar para lá de cada um. Cada um, a seu jeito, sentia-o. Sentia-o na alma, no corpo que se acomodava àquele fulguroso final. Final que marcava o início do prateado luar que convidava a sonhar, a mergulhar no âmago da nossa alma. Alma perdida, reencontrada naquela beleza ímpar.
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada

Poema de Amor
Tenho no meu coração,
No meu coração o amor,
O amor para te dar,
Para te dar, minha flor!

Minha flor e meu jardim,
Meu jardim, minha doçura,
Minha doçura e meu mel,
Meu mel e minha ternura!

Minha ternura e meu sol
E meu sol e meu luar
Meu luar, minha beleza
Minha beleza, meu par!

Meu par, minha alma gémea
Minha alma gémea, unida,
Unida a mim no amor,
No amor por toda a vida!
Maria do Céu Ferreira, 60 anos, Amarante

Ele prometeu:
Um dia, havemos de lá ir.
Havemos de lá ir, era sempre a conversa de todos os dias.
Todos os dias, quando queria alguma coisa.
Alguma coisa que lhe elevasse o seu ego de futilidade.
Futilidade, que para mim já não era novidade.
Não era novidade, mas no coração ninguém manda.
Ninguém manda, porque o amor é cego e faz de nós uns idiotas.
Idiotas, porque acreditamos em tudo que nos dizem,
mas ele prometeu.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela

Enquanto pais, na correria do dia-a-dia, nem sempre temos tempo para construir memórias. Construir memórias daquelas que ficam intrinsecamente marcadas e que o tempo não consegue apagar. Não consegue apagar o cheiro do café com leite que a nossa mãe fazia para o lanche no regresso da escola. No regresso da escola aquele abraço que nos acolhia e confortava. Acolhia e confortava uma outra realidade que agora, enquanto pais, importa recuperar e ter tempo para construir memórias.
Luís Miguel Reis, 43 anos, Cascais.

Tempo extralaboral
– Gosto muito de dormir e de ficar em casa, moro com meus avós, estudo bastante. Estudo bastante depois que meus eletrônicos foram furtados, mas minha avó usa jogos da internet.
– Uso jogos da internet, gosto de escrever nos blogs, sou professora; meu neto diz que devo utilizar bem meu tempo extralaboral.
– Utilizo bem meu tempo extralaboral; além de estudar, estagiar, atuar na música e namorar, gosto muito de dormir e de ficar em casa.

Lucas Felipe Pereira de Moura, 19 anos, e Celina Silva Pereira, 65 anos

Desconfiança

Quando ia a casa da avó Ana subia num banco e ficava muito sossegada junto á prateleira cheia de pó e esperava.
– Ela está a ouvir-nos – disse a travessa
– Não sejas desconfiada, é apenas uma criança – respondeu a terrina
– Tu não sabes que as pessoas puras de coração são as únicas que nos ouvem?
– Isso são balelas.
– Vais ver. Um dia vai por aí contando o que dizemos.
– Se pensas assim é melhores calares-te.
E assim fizeram. 

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Mulher

Quando nascemos mulheres, a tradição obriga-nos a casar, ou sou preconceituosa?
Quando somos família, vizinhos ou amigos devemos emitir juízos de valor?
Quando casamos deve ser por amor, respeito ou espírito de aventura?
Quando nos tornamos mães, os nossos filhos são o maior presente…
Quando amamos os nossos filhos, não há contratempos, a esperança persiste…
Quando somos mães por convicção, superamos todos os obstáculos e conflitos…
Quando enfrentamos o silêncio, pânico e indiferença, como transmitir a mensagem?

Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra

Desafio RS nº 11 – 7 frases de 11 palavras, sempre com uma palavra repetida

A caneta e a folha de papel

Numa noite de tempestade, uma folha de papel e uma caneta, esquecidas numa prateleira cheia de pó:
– Que tristeza! Acabar os meus dias amarela, esquecida, virgem… – queixa-se a folha de papel, sentindo-se profundamente desanimada.
– Como eu gostaria de acariciar o teu papel com o meu bico suave… – diz a caneta com ar sonhador.
– Se um relâmpago avariasse o computador, o acto consumava-se… – sorri a folha de papel, cheia de esperança.
E, talvez por vontade divina, assim aconteceu!

Margarida Leite, 45 anos, Cucujães

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Quem nos quer?

Era o 19, tão só na velha arca, e a boneca de trapos, tão debotada.
Ela reparou nos traços luzidios do 19 e perguntou:
– A quem pertencem as tuas memórias?
– Sou da fórmula 1, azul metálico, com faróis que iluminam o mundo, uma memória do João no autódromo dos corredores da casa da avó. E tu, a que mundo pertences?
– Venho do tempo terno da avó, o seu único brinquedo.
Somos memórias à espera de outras mãos.

Fátima Veríssimo, 53 anos, Seixal
Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Conversas ao pó

Um dia, numa prateleira cheia de pó, numa biblioteca antiga, muito sossegada, vivia um livro muito sabichão e uma caneta elegante. Passavam a vida a conversar sobre o novo livro de Margarida, que falava sobre reciclagem, “O Boião Mágico”.
Eles estavam a conversar quando de repente…
A gaveta abriu-se e… apareceu uma amiga que a caneta há um tempo não via: a borracha rechonchuda, que apagava tudo o que via.
A gaveta fechou-se e a história acabou-se!…

Diogo Neves, Daniel Cobileac, José Maria Reis, 3.º ano, Colégio Andrade Corvo, professora. Carla Veríssimo

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam